Manifesto do feio gramatical
6 acertos gramaticais que parecem errados, de tão feios, coitados
Recentemente fui acusada de ser muito libriana.
O motivo? Feiofobia. Existe um espécie de axioma entre os astrólogos e especialistas em signo que diz que os nascidos num momento do tempo que denominamos setembro e outubro, são agraciados com o tal do bom gosto. Então, se você pertence à porção ocidental deste mundo, carrega essa denominação.
Ungida por essa definição ancestral, eu gostaria de julgar os acertos gramaticais que são simplesmente horríveis. Mas existem e você pode ter dúvidas sobre eles.
Primeiramente, queria fazer umas ressalvas sobre o conceito de feio, no lato sensu. Eu acho que ele incomoda todo mundo, não apenas meus pares zodiacais.
Ele é genérico, muda com o tempo e interrompe o fluxo das apresentações, das decorações e das coisas. Todas as civilizações do mundo já tentaram apagar suas feiuras.
E, ainda assim, o feio pode estar em toda parte. Dentro, fora. É ubíquo, como uma mancha de bolor que volta na estação chuvosa. Por outro lado, tem um documentário sobre a beleza que se chama Why Beauty Matters que fala do oposto: porque a beleza é tão importante pra nós enquanto humanos. Recomendo aos interessados o tema.
Mas, vamos ao que interessa: tendemos a acreditar que o correto coincide com o agradável, mas isso é fake news. Mire, veja:
A Carol Jesper publicou recentemente que o plural de mau-caráter é maus-caracteres. Não há alternativa mais bonita, a safada da palavra existe assim: carregando a consoante que a nossa linda prosódia já apagou faz tempo.
Ela está certa. E ainda assim, parece um erro.
O mesmo acontece com a marcação plural de bastantes:
“Temos bastantes motivos.”
Nada poderia estar mais correto. O plural é justificado porque, nesse uso, “bastante” funciona como adjetivo, não como advérbio. Quando é adjetivo, ele concorda com o substantivo. E, no entanto, o ouvido reclama do final em -tes. A palavra parece exceder sua própria função, né?
Paralisação ou Paralização?
O erro de grafar com “z” é uma tentação fonética, afinal, o sufixo -izar está em muitos verbos. Mas a palavra é herdeira direta da paralisia, que já nasceu com “s”. Logo, o correto é paralisação. Já mandei newsletter pra +60k de leitores e ninguém mandou mensagem reclamando, acredita?
Há também algumas conjugações de verbos que nos confundem, como o intermede:
“Ele intermede a negociação.”
É a forma prevista na gramática normativa.
Mas soa defeituosa. Escutamos como se faltasse um pedaço (justamente porque nos acostumamos com o desvio).
Outra pérola é a locução adverbial “Grosso modo”
O popular “a grosso modo” é tecnicamente errado. “Grosso modo” é a forma correta, prevista pela norma culta, porque funciona como de modo formada por adjetivo + substantivo, em que o substantivo é genérico e, portanto, não leva artigo.
E, para alguns, o caso mais bonito dentre os feios seja o pretérito mais-que-perfeito simples:
“Ele fizera.”
“Ela dissera.”
“O relatório apontara.”
Caso você seja uma pessoa que não gosta do feio, mas se encanta com o estranho ( no sentido de diferente), pode dizer que essas formas são precisas, mas raras ao ouvido contemporâneo. Esse tempo verbal marca uma anterioridade no passado, geralmente em narrativas ou textos literários. Ele tem sido substituído pelo pretérito composto (“tinha feito”, “tinha dito”) ou pelo perfeito simples (“fez”, “disse”).
Note que o feio gramatical nasce de muitos lugares, mas esses que mencionei acontecem quando a gramática normativa esbarra num conceito que se chama uso consagrado.
Uso consagrado é aquilo que foi legitimado pela repetição e pela frequência. Uma forma se torna consagrada quando atravessa milhares, milhões de bocas, até deixar de soar como escolha e passar a soar como “natural” — tenho pavor desse adjetivo, mas vcs entenderam.
O ouvido humano é mais treinado pela exposição do que pela norma. Por isso, o que é raro pode soar errado, mesmo quando está certo.
A gramática não promete malemolência. Isso é com a linguística <3.
Fonte:
Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 2021.

